quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#6


Crie oportunidades para que o seu filho tome a iniciativa.

Uma das coisas que mais oiço de pais que chegam ao meu consultório com filhos que ainda não falam ou “falam pouco” é que ele é preguiçoso, que entende mas que não se esforça para falar, que é algo passivo na interacção. Então, hoje decidi partilhar algumas sugestões que poderão ajudar a criar mais oportunidades para que a criança tome a iniciativa.
É bem possível que não veja o resultado destas ideias de imediato, este poderá ser um processo até algo frustrante para ambos. No entanto, não significa que não terá efeitos posteriores. Assim, se cria uma oportunidade e o seu filho não toma a inicativa, mostre-lhe o que ele poderia ter feito ou dito e continue a realizar a actividade. Ele verá o seu exemplo e é possível que da próxima vez inicie a interacção.

Ajude o seu filho a pedir! Em vez de se apressar a dar-lhe algo que sabe que ele quer procure criar uma situação em que ele tenha que pedir. Veja os exemplos:

- Coloque um dos seus objectos/brinquedos preferidos longe do seu alcance mas no seu campo de visão e espere! Espere que o peça e dê-lho assim que ele o fizer.  
              
  
- Ofereça um pouco e… espere! Em vez de lhe dar um bocado grande de algum alimento (maçã, pão, bolacha, sumo, …), dê-lhe apenas um pouco e espere que ele peça mais. Quando ele o fizer (adulto: “Sumo! Mais sumo!”) dê mais um pouco e espere novamente.



- Escolha uma actividade que o seu filho não possa realizar sem ajuda e… espere! Pegue em brinquedos de corda, com música ou que tenha algum dispositivo que ele não consiga accionar sem ajuda e inicie a interacção, mas sem a prolongar por muito tempo. Pare e espere, para criar oportunidade para que o seu filho peça ajuda. Quando ele o fizer repita a actividade mas dê “pouca corda” ao brinquedo para que se crie nova oportunidade.


- Dê-lhe opções de escolha e… espere! Pegue em dois brinquedos ou dois alimentos e deixe-o escolher, seja através do apontar, do olhar ou do nome. Dê-lhe tempo para fazer a sua escolha e valorize as suas iniciativas comunicativas.



- Realize por alguns momentos uma actividade já habitual e… espere! Realize actividades que já costuma fazer, tais como “cavalinho”, cócegas, canções, atirar o carrinho de um para o outro, atirar a bola, … e vá interrompendo a actividade, faça pequenos intervalos para que o seu filho possa pedir continuidade.



De uma forma geral, estas sugestões são usadas no dia-a-dia pelos pais. Na minha opinião, o mais difícil para as famílias com quem me fui cruzando é dar tempo, gerir as suas ansiedades e a pressão que fazem para que aconteça algo. Quando falo em dar tempo, não significa ficar à espera porque sim. Dar tempo deve surgir após iniciar uma cadeia de interacção e deve ter como propósito a iniciativa da criança. Não desista se ele não participa de imediato!

Na próxima publicação darei algumas sugestões para ajudar o seu filho a fazer um comentário ou uma pergunta. 


Fonte: 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

Imagens retiradas da mesma fonte.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#5

NOMEAR

Significa dar nomes à realidade, explorando verbalmente o mundo.
Repare na actividade está a ser desenvolvida através do seguinte diálogo:

            
- Põe. Encaixa. Boa!
- Queres mais? Vá, isso. Assim, põe outra vez.
- Isso mesmo, boa!
- Outra? Pega.
- Isso!!



Repare como quando lemos esta amostra de discurso do adulto enquanto faz um jogo de encaixe se verifica pouco conteúdo, comparativamente com a amostra de discurso seguinte:
                - Tiraste a bola!...
                - Olha, é uma bola!
                - A bola é vermelha… e agora… vamos pôr a bola dentro da casa!
                - A bola está dentro da casa. Boa!

É importante evitar o uso de palavras vazias em detrimento de palavras preenchidas de significado.
Usar os nomes das coisas ajuda a “tirar o medo do desconhecido” ao longo do desenvolvimento expressivo.

Deixo uma sugestão para os pais: tentem observar-se um ao outro a brincar com o vosso filho ou filmem um momento de brincadeira e analisem o conteúdo do vosso discurso, imaginando se não conhecessem o contexto da brincadeira se conseguiam perceber a situação que está a acontecer. 


Imagem retirada da Internet
Fonte: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#4




Ollhos de Coruja, será?







Observar...
é bem mais do que apenas ficar passivamente a ver as coisas. Implica colocar os cinco sentidos a funcionar, captando todas as mensagens da criança, por mais pequenas que possam parecer, tais como gestos, sons, o choro, o olhar, as expressões faciais, … 


Dedique-se a observar a linguagem corporal do seu filho e a tentar decifrar as suas mensagens. Poderá aprender muito acerca do que lhe interessa... Compartilhe momentos com o seu filho! Nem sempre aquilo que nos parece mais óbvio é o que mais atrai a criança.  


Importa observar sem fazer juízos de valor, sem acrescentar adjectivos não produtivos e que não contribuam para a compreensão da situação observada. 

Imagens retiradas de: Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 
Fontes: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#3


Quando duas pessoas comunicam, seja com ou sem palavras, significa que ocorre interacção. Às vezes é necessário relembrar o básico, e que tantas vezes deixamos passar porque nos “distraímos” com um sem número de estímulos à nossa volta:

ESTABELECER CONTACTO OCULAR

Este é o requisito base para criar condições de diálogo (verbal e não-verbal) de uma verdadeira educação. Nenhuma troca comunicativa dever ser iniciada sem que exista contacto ocular que permita interpretar os sentimentos e as expressões do outro, imitá-lo, segui-lo. 


Estabelecer contacto ocular é importante para mostrar interesse na interacção, motivar para a brincadeira, manter a atenção da criança, expandir e, até mesmo, aprender. O que às vezes acontece é que nos esquecemos da nossa "altura" e esperamos que seja a criança a olhar para nós, quando é tão fácil sermos nós a ficar ao nível delas. 

Nas crianças sem problemas comunicativos, o estabelecimento do contacto ocular aparece de forma espontânea e natural. Contudo, quando a criança manifesta dificuldades de comunicação, trabalhar esta competência poderá constituir um objectivo de intervenção, uma vez que não existe como pré-requisito à comunicação.  


Aqui há uns tempos estava com a minha família em casa e quando me apercebo está o meu pai deitado no chão da garagem a brincar com a minha sobrinha de 3 anos. Primeira coisa que lhe digo: "Pai, então!". Resposta: "-Não percebes que as crianças adoram que brinquem ao nível deles, não estás a ver como ela acha esta brincadeira engraçada!". Confesso fiquei algo incomodada, afinal a terapeuta até sou eu! Mas depois fiquei a pensar se a terapeuta que sou também não foi muito construída pelo meu pai. Recordei-me que quando era pequena ele sempre se ajoelhava para falar ou brincar comigo, que quando eu tinha algo para lhe dizer mais importante ele pegava em mim ao colo e que, ainda hoje, todas as conversas que temos são acompanhadas de muita expressividade e, fiquei a pensar no quanto esta característica dele ainda é importante para mim.  

Imagens retiradas de: Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

Fontes: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#2




Costumo brincar com os pais das “minhas” crianças e dizer que eles trazem incorporado uma espécie de chip que faz com que eles se adaptem ao nível de desenvolvimento dos seus filhotes de uma forma automática e quase mágica, estando sempre uma escadinha acima daquilo que eles precisam. E é isto que faz com que a criança vá crescendo e se desenvolvendo de uma forma harmoniosa e saudável. As aquisições que ambos vão fazendo resultam do que cada um, pai e filho, dão ao outro, das plataformas comunicativas que ambos vão construindo.

Numa fase pré-verbal, ainda antes da fala desenvolvem-se competências essenciais que constituem autênticos pilares para o que virá a seguir.

          
Assim, ao longo do primeiro ano de vida é importante ter presente algumas orientações/estratégias que são promotoras do desenvolvimento da comunicação e da linguagem. O que me proponho a sugerir neste tema “Antes de falar já comunico” é válido para pais e/ou cuidadores de crianças desta faixa etária, bem como para pais de crianças com dificuldades nestas áreas do desenvolvimento.



Estas atitudes existem em cada um de nós! O que as torna tão significativas não é a sua descoberta mas consciência das consequências que elas poderão ter no desenvolvimento da criança.



Como são várias e quero comentar um pouco sobre cada uma das orientações sugeridas, vão dividi-las em mais do que uma publicação.

(Imagens retiradas da Internet)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#1


A presença de fala não é garantia que a comunicação ocorra, assim como, a ausência da mesma não implica necessariamente que não ocorra comunicação (Downing, 1999).

Qualquer aprendizagem é comunicação, pelo que é necessário saber seguir as iniciativas das crianças, saber esperar, dar-lhes tempo, observar e escutar.


 Hoje deixo um curto vídeo, que já tem circulado pela net e que é bem exemplificativo sobre as falhas de comunicação que podem existir quando o adulto (supostamente o interlocutor mais competente) falha na “leitura” dos comportamentos comunicativos da criança. E há dúvidas de que houve uma tentativa de comunicação? O que não ocorreu foi a troca de informação necessária ao processo comunicativo. Tudo isto para pensarmos como o papel do adulto cuidador é fundamental para que comunicação de facto ocorra, sem que para tal tenha que existir necessariamente fala.

Intervenção precoce

De uma forma geral, os pais são os primeiros a perceber a necessidade de Intervenção Precoce (IP) seja a que nível for com os seus filhos, ainda que possam não saber a quem se dirigir. São eles que passam mais tempo com as crianças e que os conseguem caracterizar melhor.

Contudo, nem sempre é assim e, por vezes, a criança poderá encontrar-se em risco ambiental, ou seja, as experiências poderão ser significativamente limitadas durante os primeiros anos de vida, particularmente em áreas como a ligação com a mãe, organização familiar, cuidados de saúde, nutrição e oportunidades de estimulação em termos físicos, sociais e de adaptação. Estes factores estão fortemente correlacionados com a probabilidade de atrasos no desenvolvimento.

Neste sentido, os profissionais que contactam esporadicamente com as crianças deverão ter presente a importância da detecção precoce (enfermeiros, médicos, educadores, professores,…).   

Desde o momento da concepção até à idade pré-escolar, o desenvolvimento ocorre num ritmo não comparável a qualquer outro período da vida. Assim, o desenvolvimento humano precoce é, simultaneamente uma fase de grande vulnerabilidade e de grande oportunidade, em que ocorrem mudanças físicas e mentais constantes. Estas mudanças constituem os alicerces para o funcionamento da pessoa enquanto adulto e para a maximização do seu potencial para uma vida em toda a sua plenitude.
São vários os autores que referem que o grau de qualidade do ambiente educativo influencia o efeito dos factores de risco biológico no desenvolvimento e, desta forma, fica evidente a importância de providenciar estratégias de intervenção desenvolvimentais que favoreçam e modifiquem o ambiente.
Assim, a importância da IP na prevenção das perturbações do desenvolvimento deixa de estar em causa, colocando-se a questão acerca dos factores que tornam o programa de intervenção eficaz. Dentro destes factores, a detecção precoce é sem dúvida dos mais referenciados.

(imagem retirada da net)

Essencial e determinante, é relembrar também que a prevenção é melhor do que a intervenção, e a IP é melhor do que a remediação.

Quando se providenciam medidas de IP, temos a consciência de que estamos a prevenir problemas escolares, de aprendizagem e comportamentais da criança. Problemas de desenvolvimento e do comportamento são, com frequência, observados por profissionais de saúde. A identificação e referenciação destes problemas são fulcrais para que seja providenciada intervenção apropriada e atempada. Contudo, o que se verifica é que tal não acontece. À clínica chegam frequentemente crianças com 5/6 anos com Perturbações da Comunicação e Linguagem, pelo que nos questionamos com frequência como teria decorrido a intervenção se tivesse começado mais cedo.

A competência que a criança tem em qualquer ponto do seu desenvolvimento precoce, quer a tenho atingido por processos de desenvolvimento normais ou com recurso à IP, não está linearmente relacionada com a sua competência posterior na vida. Para conseguirmos predizer o futuro desenvolvimento do indivíduo, necessitamos de ter em atenção os efeitos que o ambiente social e familiar da criança têm, actuando de modo a aumentar a continuidade do curso desenvolvimental positivo. Os programas de IP não conseguem ter sucesso se as alterações alcançadas se dão unicamente na criança (Sameroff e Fiese, 1990, in Peixoto, V., 2007).

De acordo com o Despacho-Conjunto Nº 891/99, de 10 de Outubro, a IP visa:
a)      Assegurar condições facilitadoras do desenvolvimento da criança com deficiência ou em risco de atraso grave do desenvolvimento;
b)      Potenciar a melhoria das interacções familiares;
c)       Reforçar as competências familiares como suporte da sua progressiva capacitação e autonomia face à problemática da deficiência.
(Fonte: PEIXOTO, V. (2007) Perturbações da Comunicação – Importância da detecção precoce. Edições Universidade Fernando Pessoa.)