domingo, 4 de março de 2012

Amar é educar...


Hoje decidi interromper o tema "Antes de Falar já Comunico" para abordar um dos temas de conversa que mais surge no dia-a-dia: comportamento!


Muitos dos pais queixam-se do comportamento dos filhos, do facto de não pararem quietos, da dificuldade em cumprir tarefas e, com frequência, da desobediência. Sinceramente, não me parece que haja uma “receita” que resulte com todos e as estratégias a usar dependem da criança, dos contextos em que está inserida e da idade. Contudo, aquele que me parece ser um factor determinante é a atitude dos pais perante as “malandrices” dos filhos. Por norma, as crianças comportam-se de forma diferente com diferentes interlocutores porque sabem o que esperar de cada um. A consistência do comportamento do cuidador é muito importante bem como a atitude que temos perante as birras e as “teimosias” das crianças. Importa relembrar que elas aprendem muito por imitação e que os modelos que lhes damos agora terão sérios reflexos nos adultos que se virão a tornar. 

Não pretendo aqui analisar aspectos comportamentais das crianças, no entanto acho sensato antes de afirmarmos que existe uma situação de mau comportamento tentar perceber se existem factores que poderão estar a causar essas atitudes. Alguns dos acontecimentos que poderão causar stress ou ansiedade estão relacionados com as mudanças na rotina da criança, como mudar de casa, discussões familiares prolongadas ou graves, divórcio dos pais, acidente ou perda de alguém querido, nascimento de um irmão, acontecimentos que afectem a estabilidade dos pais (desemprego, doença, questões legais, …).  

O comportamento não é algo que seja sempre estável nem que possamos controlar de forma constante e muitas vezes temos que nos questionar se são as crianças que estão a ser “birrentas” ou se somos nós. Será que hoje não estou um pouco mais ansiosa/o ou agitada/o? Noutra situação eu chamaria na mesma à atenção? Por vezes, vejo os pais ralhar aos filhos porque estavam a fazer uma brincadeira adequada à idade (sim, porque é importante nos lembrarmos que eles não tem que se comportar como adultos, eles são crianças por isso brincam, mesmo quando queremos estar sossegados a conversar no café ou a fazer compras, …) mas não o fazem quando eles são mal educados com alguém ou desrespeitam alguma regra que conhecem e que já foi imposta antes. Esta inconsistência “confunde” a criança e não contribui para a sua estabilidade comportamental, havendo mais tendência para a manipulação.

Este é sempre um assunto de que se poderia falar durante muito tempo e será certamente novamente abordado aqui no blog. Hoje deixo algumas linhas de orientação básicas para usar no dia-a-dia.

- Quando a criança procura manipular o adulto através do “chorinho”, das queixas, amuos, insistindo muito, é fundamental ter mais força de espírito e não se deixar vencer pelo cansaço. Tenha alguma atenção ao uso de recompensas (dar doces, pequenas prendas, …) pois se for usado muitas vezes rapidamente se torna na moeda de troca e só se portam bem quando são recompensadas.



- Procure evitar as chantagens com a criança porque elas aprendem com os exemplos dos pais e com o tempo “o feitiço vira-se contra o feiticeiro”.



- Diga-lhe claramente o que pretende, não dê ordens contraditórias ou pouco explícitas.

- Procure evitar frases do tipo “Vem aí o velho”, “Vou chamar o polícia” ou “Vou dar-te aos ciganos”. Além de ser uma mentira, só contribui para aumentar sentimentos de insegurança e, consequentemente, alguma agressividade de defesa.

- Quando a criança faz uma birra, deve deixar que esperneie, chore, grite, enfim… deixe que a birra passe sem oferecer nada para que ela se acalme (só está a valorizar a birra). Quando a criança acalmar explique-lhe com calma e sem julgamentos que não é assim que obtém o que pretende. Depois de se ter acalmado deve ser valorizada por o ter conseguido, sem o seu desejo ter sido satisfeito.

- Se a criança faz frequentemente birras é porque já percebeu que essa é uma forma de manipulação que funciona consigo, assim sendo está na hora de alterar algo na sua atitude. Primeiro, dê atenção à criança quando ela se portar bem: encoraje e elogie o bom comportamento. Estabeleça uma rotina, pois quando as crianças sabem o que as espera tem mais tendência a estar mais calmas e a fazer menos birras. Quando ela inicia uma birra, não valorize, ignore e se possível mude de divisão da casa.

- Lembre-se que as crianças gostam de testar os limites dos adultos. Quando lhe diz “não” deve manter a sua palavra até ao fim. Se não o vai conseguir fazer então não o faça. Como dizia a minha sobrinha aqui há dias “não é não!” (aprendeu na escola). E acontece o mesmo com os castigos ou retirada de privilégios. Não faça aquilo para que não está preparado. Com frequência oiço na clínica: “portaste-te mal, hoje não há televisão!” mas quando questiono se o pai/mãe vai ser capaz de manter a televisão desligada lá em casa o dia todo, a resposta “Não, é só até chegar a casa, é só para ele ter medo”! Sinceramente, acham que a criança leva a sério? 

O mais importante nos castigos é o que se transmite através deles, não explore exaustivamente o porquê do castigo mas diga-lhe a razão. Seja claro e firme e dê castigos proporcionais às asneiras. 

Como casal, não se devem contrariar um ao outro nem quebrar as regras impostas por um dos pais. Quando não concordam discutam em privado o assunto e tentem encontrar um meio termo antes de agir. Tenham bem presente que aprender a lidar com os “nãos” é fundamental para o crescimento psicológico da criança, que lhe permite desenvolver mecanismos de defesa para lidar com as frustrações da vida. Quando não somos assertivos neste aspecto, e tentamos evitar que as crianças sintam tristeza ou frustração porque os queremos proteger, corremos o risco de transformá-los em pessoas frágeis e com mais dificuldade para lidar com os viés que a vida lhes vai trazer.  

- Será que educar está sempre relacionado com repreensão? Ou será antes com respeito? Será necessário uma palmada para que eles respeitem? Como posso ter uma atitude mais positiva?
Deixo estas questões para uma próxima publicação…

Imagens retiradas da Internet

quinta-feira, 1 de março de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#7


Ajude o seu filho a fazer um comentário ou uma pergunta.

- Mude uma actividade familiar… e espere! Por vezes, em vez de interromper uma actividade já habitual (como sugeri no tópico anterior) poderá alterar a sequência com que a realiza ou fazer algo que eventualmente está fora do contexto. A surpresa cria a oportunidade para que o seu filho inicie uma interacção através de um comentário ou uma pergunta. Por exemplo, na actividade de vestir experimente colocar o sapato na mão. Não se esqueça que poderá expandir o comentário do seu filho ou dar significado a uma expressão interrogativa da parte dele.



- Esconda objectos em lugares inesperados e… espere! Deixe que o seu filho encontre e se surpreenda. Dê-lhe tempo para que ele comente.





- Quando as coisas correm mal…espere! Todos os dias vão surgindo pequenos problemas ao seu filho, tais como o jogo que caiu, os lápis que se partiram, um brinquedo que está longe, a bolacha que caiu ao chão, … Em vez de se prontificar a resolver estas situações rapidamente espere alguns segundos para ver o que diz o seu filho. Finja que não viu se necessário. Desta forma cria mais uma oportunidade para que o seu filho comente ou chame a sua atenção.  


Fonte: 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

Imagens retiradas da mesma fonte.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#6


Crie oportunidades para que o seu filho tome a iniciativa.

Uma das coisas que mais oiço de pais que chegam ao meu consultório com filhos que ainda não falam ou “falam pouco” é que ele é preguiçoso, que entende mas que não se esforça para falar, que é algo passivo na interacção. Então, hoje decidi partilhar algumas sugestões que poderão ajudar a criar mais oportunidades para que a criança tome a iniciativa.
É bem possível que não veja o resultado destas ideias de imediato, este poderá ser um processo até algo frustrante para ambos. No entanto, não significa que não terá efeitos posteriores. Assim, se cria uma oportunidade e o seu filho não toma a inicativa, mostre-lhe o que ele poderia ter feito ou dito e continue a realizar a actividade. Ele verá o seu exemplo e é possível que da próxima vez inicie a interacção.

Ajude o seu filho a pedir! Em vez de se apressar a dar-lhe algo que sabe que ele quer procure criar uma situação em que ele tenha que pedir. Veja os exemplos:

- Coloque um dos seus objectos/brinquedos preferidos longe do seu alcance mas no seu campo de visão e espere! Espere que o peça e dê-lho assim que ele o fizer.  
              
  
- Ofereça um pouco e… espere! Em vez de lhe dar um bocado grande de algum alimento (maçã, pão, bolacha, sumo, …), dê-lhe apenas um pouco e espere que ele peça mais. Quando ele o fizer (adulto: “Sumo! Mais sumo!”) dê mais um pouco e espere novamente.



- Escolha uma actividade que o seu filho não possa realizar sem ajuda e… espere! Pegue em brinquedos de corda, com música ou que tenha algum dispositivo que ele não consiga accionar sem ajuda e inicie a interacção, mas sem a prolongar por muito tempo. Pare e espere, para criar oportunidade para que o seu filho peça ajuda. Quando ele o fizer repita a actividade mas dê “pouca corda” ao brinquedo para que se crie nova oportunidade.


- Dê-lhe opções de escolha e… espere! Pegue em dois brinquedos ou dois alimentos e deixe-o escolher, seja através do apontar, do olhar ou do nome. Dê-lhe tempo para fazer a sua escolha e valorize as suas iniciativas comunicativas.



- Realize por alguns momentos uma actividade já habitual e… espere! Realize actividades que já costuma fazer, tais como “cavalinho”, cócegas, canções, atirar o carrinho de um para o outro, atirar a bola, … e vá interrompendo a actividade, faça pequenos intervalos para que o seu filho possa pedir continuidade.



De uma forma geral, estas sugestões são usadas no dia-a-dia pelos pais. Na minha opinião, o mais difícil para as famílias com quem me fui cruzando é dar tempo, gerir as suas ansiedades e a pressão que fazem para que aconteça algo. Quando falo em dar tempo, não significa ficar à espera porque sim. Dar tempo deve surgir após iniciar uma cadeia de interacção e deve ter como propósito a iniciativa da criança. Não desista se ele não participa de imediato!

Na próxima publicação darei algumas sugestões para ajudar o seu filho a fazer um comentário ou uma pergunta. 


Fonte: 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

Imagens retiradas da mesma fonte.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#5

NOMEAR

Significa dar nomes à realidade, explorando verbalmente o mundo.
Repare na actividade está a ser desenvolvida através do seguinte diálogo:

            
- Põe. Encaixa. Boa!
- Queres mais? Vá, isso. Assim, põe outra vez.
- Isso mesmo, boa!
- Outra? Pega.
- Isso!!



Repare como quando lemos esta amostra de discurso do adulto enquanto faz um jogo de encaixe se verifica pouco conteúdo, comparativamente com a amostra de discurso seguinte:
                - Tiraste a bola!...
                - Olha, é uma bola!
                - A bola é vermelha… e agora… vamos pôr a bola dentro da casa!
                - A bola está dentro da casa. Boa!

É importante evitar o uso de palavras vazias em detrimento de palavras preenchidas de significado.
Usar os nomes das coisas ajuda a “tirar o medo do desconhecido” ao longo do desenvolvimento expressivo.

Deixo uma sugestão para os pais: tentem observar-se um ao outro a brincar com o vosso filho ou filmem um momento de brincadeira e analisem o conteúdo do vosso discurso, imaginando se não conhecessem o contexto da brincadeira se conseguiam perceber a situação que está a acontecer. 


Imagem retirada da Internet
Fonte: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#4




Ollhos de Coruja, será?







Observar...
é bem mais do que apenas ficar passivamente a ver as coisas. Implica colocar os cinco sentidos a funcionar, captando todas as mensagens da criança, por mais pequenas que possam parecer, tais como gestos, sons, o choro, o olhar, as expressões faciais, … 


Dedique-se a observar a linguagem corporal do seu filho e a tentar decifrar as suas mensagens. Poderá aprender muito acerca do que lhe interessa... Compartilhe momentos com o seu filho! Nem sempre aquilo que nos parece mais óbvio é o que mais atrai a criança.  


Importa observar sem fazer juízos de valor, sem acrescentar adjectivos não produtivos e que não contribuam para a compreensão da situação observada. 

Imagens retiradas de: Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 
Fontes: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#3


Quando duas pessoas comunicam, seja com ou sem palavras, significa que ocorre interacção. Às vezes é necessário relembrar o básico, e que tantas vezes deixamos passar porque nos “distraímos” com um sem número de estímulos à nossa volta:

ESTABELECER CONTACTO OCULAR

Este é o requisito base para criar condições de diálogo (verbal e não-verbal) de uma verdadeira educação. Nenhuma troca comunicativa dever ser iniciada sem que exista contacto ocular que permita interpretar os sentimentos e as expressões do outro, imitá-lo, segui-lo. 


Estabelecer contacto ocular é importante para mostrar interesse na interacção, motivar para a brincadeira, manter a atenção da criança, expandir e, até mesmo, aprender. O que às vezes acontece é que nos esquecemos da nossa "altura" e esperamos que seja a criança a olhar para nós, quando é tão fácil sermos nós a ficar ao nível delas. 

Nas crianças sem problemas comunicativos, o estabelecimento do contacto ocular aparece de forma espontânea e natural. Contudo, quando a criança manifesta dificuldades de comunicação, trabalhar esta competência poderá constituir um objectivo de intervenção, uma vez que não existe como pré-requisito à comunicação.  


Aqui há uns tempos estava com a minha família em casa e quando me apercebo está o meu pai deitado no chão da garagem a brincar com a minha sobrinha de 3 anos. Primeira coisa que lhe digo: "Pai, então!". Resposta: "-Não percebes que as crianças adoram que brinquem ao nível deles, não estás a ver como ela acha esta brincadeira engraçada!". Confesso fiquei algo incomodada, afinal a terapeuta até sou eu! Mas depois fiquei a pensar se a terapeuta que sou também não foi muito construída pelo meu pai. Recordei-me que quando era pequena ele sempre se ajoelhava para falar ou brincar comigo, que quando eu tinha algo para lhe dizer mais importante ele pegava em mim ao colo e que, ainda hoje, todas as conversas que temos são acompanhadas de muita expressividade e, fiquei a pensar no quanto esta característica dele ainda é importante para mim.  

Imagens retiradas de: Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

Fontes: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#2




Costumo brincar com os pais das “minhas” crianças e dizer que eles trazem incorporado uma espécie de chip que faz com que eles se adaptem ao nível de desenvolvimento dos seus filhotes de uma forma automática e quase mágica, estando sempre uma escadinha acima daquilo que eles precisam. E é isto que faz com que a criança vá crescendo e se desenvolvendo de uma forma harmoniosa e saudável. As aquisições que ambos vão fazendo resultam do que cada um, pai e filho, dão ao outro, das plataformas comunicativas que ambos vão construindo.

Numa fase pré-verbal, ainda antes da fala desenvolvem-se competências essenciais que constituem autênticos pilares para o que virá a seguir.

          
Assim, ao longo do primeiro ano de vida é importante ter presente algumas orientações/estratégias que são promotoras do desenvolvimento da comunicação e da linguagem. O que me proponho a sugerir neste tema “Antes de falar já comunico” é válido para pais e/ou cuidadores de crianças desta faixa etária, bem como para pais de crianças com dificuldades nestas áreas do desenvolvimento.



Estas atitudes existem em cada um de nós! O que as torna tão significativas não é a sua descoberta mas consciência das consequências que elas poderão ter no desenvolvimento da criança.



Como são várias e quero comentar um pouco sobre cada uma das orientações sugeridas, vão dividi-las em mais do que uma publicação.

(Imagens retiradas da Internet)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ANTES DE FALAR JÁ COMUNICO#1


A presença de fala não é garantia que a comunicação ocorra, assim como, a ausência da mesma não implica necessariamente que não ocorra comunicação (Downing, 1999).

Qualquer aprendizagem é comunicação, pelo que é necessário saber seguir as iniciativas das crianças, saber esperar, dar-lhes tempo, observar e escutar.


 Hoje deixo um curto vídeo, que já tem circulado pela net e que é bem exemplificativo sobre as falhas de comunicação que podem existir quando o adulto (supostamente o interlocutor mais competente) falha na “leitura” dos comportamentos comunicativos da criança. E há dúvidas de que houve uma tentativa de comunicação? O que não ocorreu foi a troca de informação necessária ao processo comunicativo. Tudo isto para pensarmos como o papel do adulto cuidador é fundamental para que comunicação de facto ocorra, sem que para tal tenha que existir necessariamente fala.

Intervenção precoce

De uma forma geral, os pais são os primeiros a perceber a necessidade de Intervenção Precoce (IP) seja a que nível for com os seus filhos, ainda que possam não saber a quem se dirigir. São eles que passam mais tempo com as crianças e que os conseguem caracterizar melhor.

Contudo, nem sempre é assim e, por vezes, a criança poderá encontrar-se em risco ambiental, ou seja, as experiências poderão ser significativamente limitadas durante os primeiros anos de vida, particularmente em áreas como a ligação com a mãe, organização familiar, cuidados de saúde, nutrição e oportunidades de estimulação em termos físicos, sociais e de adaptação. Estes factores estão fortemente correlacionados com a probabilidade de atrasos no desenvolvimento.

Neste sentido, os profissionais que contactam esporadicamente com as crianças deverão ter presente a importância da detecção precoce (enfermeiros, médicos, educadores, professores,…).   

Desde o momento da concepção até à idade pré-escolar, o desenvolvimento ocorre num ritmo não comparável a qualquer outro período da vida. Assim, o desenvolvimento humano precoce é, simultaneamente uma fase de grande vulnerabilidade e de grande oportunidade, em que ocorrem mudanças físicas e mentais constantes. Estas mudanças constituem os alicerces para o funcionamento da pessoa enquanto adulto e para a maximização do seu potencial para uma vida em toda a sua plenitude.
São vários os autores que referem que o grau de qualidade do ambiente educativo influencia o efeito dos factores de risco biológico no desenvolvimento e, desta forma, fica evidente a importância de providenciar estratégias de intervenção desenvolvimentais que favoreçam e modifiquem o ambiente.
Assim, a importância da IP na prevenção das perturbações do desenvolvimento deixa de estar em causa, colocando-se a questão acerca dos factores que tornam o programa de intervenção eficaz. Dentro destes factores, a detecção precoce é sem dúvida dos mais referenciados.

(imagem retirada da net)

Essencial e determinante, é relembrar também que a prevenção é melhor do que a intervenção, e a IP é melhor do que a remediação.

Quando se providenciam medidas de IP, temos a consciência de que estamos a prevenir problemas escolares, de aprendizagem e comportamentais da criança. Problemas de desenvolvimento e do comportamento são, com frequência, observados por profissionais de saúde. A identificação e referenciação destes problemas são fulcrais para que seja providenciada intervenção apropriada e atempada. Contudo, o que se verifica é que tal não acontece. À clínica chegam frequentemente crianças com 5/6 anos com Perturbações da Comunicação e Linguagem, pelo que nos questionamos com frequência como teria decorrido a intervenção se tivesse começado mais cedo.

A competência que a criança tem em qualquer ponto do seu desenvolvimento precoce, quer a tenho atingido por processos de desenvolvimento normais ou com recurso à IP, não está linearmente relacionada com a sua competência posterior na vida. Para conseguirmos predizer o futuro desenvolvimento do indivíduo, necessitamos de ter em atenção os efeitos que o ambiente social e familiar da criança têm, actuando de modo a aumentar a continuidade do curso desenvolvimental positivo. Os programas de IP não conseguem ter sucesso se as alterações alcançadas se dão unicamente na criança (Sameroff e Fiese, 1990, in Peixoto, V., 2007).

De acordo com o Despacho-Conjunto Nº 891/99, de 10 de Outubro, a IP visa:
a)      Assegurar condições facilitadoras do desenvolvimento da criança com deficiência ou em risco de atraso grave do desenvolvimento;
b)      Potenciar a melhoria das interacções familiares;
c)       Reforçar as competências familiares como suporte da sua progressiva capacitação e autonomia face à problemática da deficiência.
(Fonte: PEIXOTO, V. (2007) Perturbações da Comunicação – Importância da detecção precoce. Edições Universidade Fernando Pessoa.)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quando devo levar o meu filho ao terapeuta da fala?


Esta é uma das questões colocadas por muitos pais a si próprios, aos educadores, médicos de família, enfim… Muitas vezes chegam à primeira consulta ou ao rastreio e referem que o instinto lhes dizia que já deviam ter vindo, mas será que não era precipitado?! Este processo é muitas vezes facilitado por familiares próximos e/ou vizinhos que têm ou tiveram contacto com o mundo da terapia da fala. Também acontece o inverso, em que a mesma rede desconhece o trabalho e a importância e, portanto, desincentiva a procura de um terapeuta.

Com este post, pretendo deixar linhas gerais de orientação para a identificação de sinais que ajudem os pais na decisão de procurar um terapeuta da fala ou não.

Sinais de Alerta:
                - aos 12 meses não reage ao seu nome nem a sons familiares; interage pouco com os outros.
- aos 18-24 meses não cumpre instruções simples, ainda não fala ou usa apenas palavras isoladas.
- aos 3 anos não constrói pequenas frases e os pais e familiares não compreendem o que diz; conhece e diz poucas palavras.
- aos 4 anos não conta acontecimentos do dia ou que aconteceram recentemente; a fala ainda não é percebida por todos. Tem dificuldade em iniciar uma frase/repete sílabas (gaguez).
                - aos 5 anos não diz ou troca sons, constrói frases muito simples e/ou desorganizadas e é pouco coerente a contar uma história ou um acontecimento.
                - em idade escolar  tem dificuldades de leitura e escrita; (estas dificuldades serão tema para um post posterior).
(Fonte: Rebelo, A; Vital, A (2006) “Desenvolvimento da Linguagem e Sinais de Alerta: Construção e Validação de um Folheto Informativo”, Re (habiitar) – Revista da Essa, nº2, Edições Colibri, pág. 69-98.)



Sempre que tiver dúvidas não hesite em procurar um terapeuta para uma consulta de avaliação. Em diversos gabinetes/clínicas existe um serviço de rastreio, onde se pondera se uma criança está de alguma forma em risco e são dadas orientações aos pais.  

No Mundo dos Piratinhas”  pretende ser um espaço onde se vá “conversando” sobre o desenvolvimento infantil de uma forma geral, com um ênfase especial sobre as questões da Comunicação e da Linguagem, ou não fosse eu Terapeuta da Fala.

Exerço a minha profissão desde 2005, quase exclusivamente com crianças até aos 12 anos e, desde então, que vou tendo diversas conversas com os pais das “minhas” crianças sobre rotinas, comportamento, aprendizagem,… educação de uma forma geral, que me parecem pertinentes para todos e que muitas vezes gostaria de poder partilhar. Esta foi a forma que encontrei para poder explorar estes temas e que espero que possa ser útil para pais, educadores, professores, familiares, … e pessoas interessadas.

Importa ter presente que o crescimento de um adulto saudável, consciente e seguro, está assente naquilo que a infância poderá representar. A base de sustentação de um adulto inicia-se na infância e terá reflexos naquele que um dia se irá transformar num homem ou mulher. Desta forma, torna-se fundamental dotarmo-nos de ferramentas que nos permitam ser educadores mais preparados, mais confiantes, capazes de identificar sinais, entender e gerir conflitos e procurar soluções. Neste percurso, tem-me parecido como terapeuta que todo o conhecimento é pouco e que, cada vez mais, os pais procuram estar mais informados.

 “Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a” Johann Goethe
Mas amá-la é educá-la…