sábado, 10 de março de 2012

Será que o meu filho não ouve bem?

Os primeiros anos de vida são repletos de aprendizagens e cada dia traz novas surpresas para a criança e para a sua família. Os pais devem procurar estar atentos ao desenvolvimento da linguagem e identificar se, em algum momento, existe necessidade de realizar uma avaliação/despiste. De entre as várias causas de um Atraso no Desenvolvimento da Linguagem está a perda auditiva que, ainda que ligeira poderá reflectir-se de forma significativa nas competências comunicativas da criança.



Sugiro que responda às questões, de acordo com as idades como referência:    

- 3 meses: O seu filho assusta-se e começa a chorar com sons elevados? O seu filho reage a sons como a sua voz?
- 6 meses: O seu filho volta a cabeça e olha para o local de onde vem o som?
- 9 meses: O seu filho reage ao seu próprio nome, olhando ou voltando-se na direção de quem o chamou?
-12 meses: O seu filho produz sons e compreende nomes simples como “popó” e “papa”?
-15 meses: O seu filho responde a ordens simples ("Dá o pão" ou "Mostra o pé") e diz algumas palavras? 
Independentemente da idade esteja atento a alguns sinais de alerta, tais como:

- Não reage quando ouve sons suaves, mesmo que não exista barulho de fundo.
       
- Parece sempre distraído e usa com frequência as expressões “o quê?” “ãh?”.


- Fica muito atento ao rosto e às expressões faciais das pessoas com quem está a falar, como se procurasse "ler" a fala do outro.


- Fica mais confuso quando existe ruído de fundo e parece não compreender o que lhe dizem.


- Gosta de colocar o volume da televisão alto e quando os adultos não deixam procura um lugar mais perto da TV.


- Não gosta de falar ao telefone e não entende o que lhe dizem. Pode acontecer também reparar que o seu filho troca o telefone de ouvido na tentativa de compreender.  


- Não reage a sons bruscos, mesmo aqueles que normalmente até os adultos se assustam.

- Tem dificuldades em falar e em corrigir-se quando os adultos lhe dão o modelo, tendo dificuldade e manter a atenção.

Importa referir que, caso exista uma perda auditiva as aprendizagens escolares estarão comprometidas e a frustração da criança e da família vai aumentando. Os sinais de alerta que referi não devem ser considerados isoladamente, tente estar atento a diferentes comportamentos. Se tem dúvidas e pensa que esta poderá ser a causa das dificuldades do seu filho faça os testes auditivos. 

Não adie um diagnóstico por medo! 



Fonte:

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ler e Compreender pode ser mais fácil...

Uma das áreas em que o terapeuta da fala intervém, com frequência, é a nível da leitura-escrita. Nas fases iniciais de aprendizagem há uma grande preocupação com a consciência dos sons e a sua associação aos grafemas. Existe aqui um sem número de questões importantes que fazem com que este processo decorra melhor ou pior. Contudo, este não será o tema desta publicação.


O que hoje proponho são estratégias/orientações para os pais usarem em casa para facilitar a compreensão da leitura, quer seja para crianças que tiveram alguma dificuldade nas aprendizagens iniciais da leitura e que ainda não são funcionais nesta competência, ou simplesmente para crianças que estão nesta fase de aprendizagem.


Então, como posso ajudar?

- incentive a leitura de contos infantis/fábulas, que são textos com uma estrutura simples, ricos em vocabulário e, de uma forma geral, motivantes.

- analise o título ainda antes da leitura do texto e “especule” sobre o tema que será abordado nesse mesmo texto.


- a história/texto pode ser lida primeiro por si antes de pedir à criança para ler, explorando o vocabulário novo e/ou mais abstracto.


- a história/texto deve ser lida por etapas, e o adulto faz o “varrimento” do que leu através da análise oral da história, ou seja leia uma pequena parte e em seguida pare e faça algumas perguntas acerca do que foi lido e só depois continue.


- peça à criança para recontar cada parte da história.


- após analisar cada parte da história peça o reconto na totalidade.


- use apoio visual para concretizar vocabulário novo. Procure na internet imagens para mostrar o que significam as palavras novas.


- peça à criança para explicar o acontecimento principal de um texto, dar a ideia geral de um acontecimento, inventar títulos (ou seleccionar o que mais se adequa).


- reforce os sucessos da criança e os esforços e tentativas também. Estar constantemente a dizer-lhe que errou não faz com que ela se sinta melhor e motivada. Seja paciente e quando não corre bem tente de novo.


- respeite o ritmo de aprendizagem da criança.




Estas são algumas estratégias que usadas diariamente na exploração dos textos do trabalho de casa podem facilitar esta tarefa, tantas vezes complicada para as crianças, de compreender o que lêem. Ao fim-de-semana procure ler contos infantis, mesmo que a criança já os conheça. Se ler ainda é muito "difícil" escolha historinhas mais pequeninas. Sugiro uma visita ao site da História do dia.


Boas leituras!


Imagens retiradas da internet
Fontes:
Carvalho, A.; (2011) Aprendizagem da leitura - Processos cognitivos, avaliação e intervenção. Psicosoma, Viseu. 
Pereira, R.; (2011) Programa de Neurociência - Intervenção em leitura e escrita. Psicosoma, Viseu. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Uma escadinha acima...


De uma forma geral os pais conseguem fazer um desnível em relação às competências evidenciadas pelos seus filhos e o modelo que lhe vão dando. Contudo, nem sempre o desenvolvimento da linguagem surge nas fases esperadas e, algures neste percurso, vai-se perdendo esta naturalidade. 

Tinha falado aqui no conceito de "expansão semântica" e pareceu-me que não ficou muito claro, por isso decidi dar um exemplo:
  
A criança olha para o carro do pai e diz: "Popó!". Neste caso a mãe pode acrescentar: 
    
"O popó do papá!" ou "O popó é grande".

O adulto não deverá ultrapassar 3 a 4 palavras acima do enunciado produzido pela criança, para ser entendido  e servir de modelo optimal. Quantas vezes não acontece de falarmos tanto que a meio as crianças já nem estão a prestar atenção? "Falar muito" com a criança em determinadas fases deve ser doseado e deve existir tempo para que ela também possa responder.

Esta extensão pode ocorrer a nível gramatical, através do uso de palavras funcionais, tendo presente a noção de que estas custam mais a ser assimiladas. Exemplo: se a criança usa a palavra "bola", o cuidador poderá usar:
 "a tua bola", 
"a bola no cesto", 
"bola fora do campo", ... 


Outra questão que me fazem com frequência é se se deve usar ou não infantilismos, como "papa", "popó" ou outros. Numa primeira fase, tanto o cuidador como o bebé dirão "popó" e deve encorajar este tipo de infantilismos. Ao fim de algum tempo, verá que a criança já usará com um certo à-vontade esta palavra, por isso deverá propor uso do modelo adulto. Assim, quando o seu filho diz "popó" repita "popó" para reforçar e em seguida acrescente "o carro", juntando-lhe o modelo adulto do mesmo conceito. 
Só após este fase é que se permita a usar sempre a palavra adulta, pois agora ele saberá que têm o mesmo significado. 



Imagens retiradas da Internet. 
Fonte: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Siga a iniciativa do seu filho...

Continuando o tema "Antes de Falar já Comunico", proponho mais uma orientação que traz bons resultados: seguir a iniciativa da criança. Isto significa responder com interesse ao que o seu filho está a comunicar, mostrando-lhe que o que faz ou diz é interessante e importante para si.


Há várias formas de seguir a iniciativa da criança:
- responder imediatamente e com interesse
- juntar-se ao jogo e jogar
- seguir a iniciativa do seu filho com acções e palavras, através da imitação, interpretação e fazendo comentários. (este tópico será abordado na próxima publicação)

Quando a criança  inicia uma interacção, procure responder-lhe de imediato, independentemente da forma como a mensagem é transmitida: um olhar um som, um sorriso, um movimento do corpo, um gesto ou palavra. Diga algo em seguida para que ele saiba que recebeu a sua mensagem. Demonstre um tom de voz entusiasmado e sorria.


As vantagens de compartilhar os interesses do seu filho são simples:
- ele é mais propenso a comunicar sobre aquilo que lhe interessa
- aprende mais quando a sua resposta se relaciona com a mensagem
- ele mantém mais facilmente a atenção em actividades que lhe interessam.


Participe no jogo: jogar com o seu filho é uma das formas mais divertidas de seguir a sua iniciativa e comunicar.

Quando a criança ainda é pequenina, use palavras e sons que possa associar às actividades que estão a acontecer, como "Ohh-ohh" ou "Ups" quando caí algo ao chão; "vrrrrrrr" associado ao som do carro em movimento; "muuuummm" com gesto associado na barriga que mostra que a comida era boa; "Puuumm", para associar a barulhos fortes ou quedas; brinque aos sons dos animais, ... Faça-o de forma divertida.

Com crianças mais crescidas procure encontrar os seus próprios jogos.



É difícil brincar com a criança quando apenas ela tem o objecto. Neste caso é importante evitar ser apenas um espectador.  Por exemplo, se o seu filho está a fazer deslizar um camião ou a construir algo com legos, procure encontrar algo semelhante para poder brincar com ele e participar.

Quando as crianças chegam aquela fase em que já dizem as primeiras palavras, brinque "às casinhas": finjam situações do dia, como dar "comida" um ao outro, "brincar aos médicos", ... Escolha um papel e aja como tal.

Divirta-se a Brincar :)

Imagens retiradas da internet

Fonte: 
Wietzman, E.; Pepper, J. (2007) Hablando... Nos Entendemos los dos. The Hanen Program; Toronto. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Dia Europeu da Terapia da Fala


Vídeo elaborado por colegas da UFP e que mostra as áreas de intervenção do terapeuta

Já comecei este blog há alguns dias e tenho abordado alguns temas relacionados com a minha profissão, a Terapia da Fala, sem ainda ter explorado em que consiste. Além de o fazer, hoje deixarei também a apresentação e o contacto de alguns colegas que trabalham em diferentes locais do país. Parece-me importante mostrar o rosto de alguns que todos os dias fazem desta profissão aquilo que ela é. Ficam também os contactos para que possam tirar dúvidas ou marcar consulta se necessário.   

Quem é o Terapeuta da Fala?


"O Terapeuta da Fala intervém ao nível de perturbações de comunicação, de alterações da fala, da voz e da linguagem oral e escrita, na criança, no adolescente, no adulto e na pessoa idosa, qualquer que seja a etiologia. A este profissional compete a prevenção, a avaliação, o tratamento e o estudo científico da comunicação humana e das perturbações associadas. Neste contexto, a comunicação engloba todas as funções associadas à compreensão e à expressão da linguagem oral e escrita, assim como todas as formas apropriadas de comunicação não-verbal".



Áreas de Intervenção

- Perturbações da interação e comunicação (ex.:. indivíduos com autismo)
- Perturbações da alimentação e deglutição (ex.: após lesão neurológica)
- Perturbações da linguagem
- Perturbações da leitura e escrita
- Perturbações articulatórias (ex.:. indivíduos com distorções em sons da fala)
- Perturbações da fluência do discurso (e.x.: indivíduos com gaguez)
- Perturbações da voz


Contextos em que pode trabalhar

- Hospitais;
- Unidades de cuidados continuados;
- Centros de Saúde;
- Clínicas e Gabinetes Privados;
- Agrupamento de escolas;
- Jardins-de-Infância e Creches;
- Serviços ao domicílio;
- Instituições de solidariedade social e de reinserção social;
- Instituições de arte e espectáculo;

(Fonte: CPLOL -Comité Permanente de Ligação dos Terapeutas da Fala da União Europeia)


Algumas das pessoas que tenho o orgulho de dizer que sou colega de profissão: 

Terapeuta Ana Catarina Coelho Costa
Licenciada em Terapêutica da Fala pela Universidade do Algarve, em 2008.
Pós-Graduada em Motricidade Oro-Facial pelo Instituto Superior de Saúde do Alto Ave – ISAVE, em 2010.
Terapeuta da Fala de uma IPSS – Associação da Creche de Braga – desde 2008. "Trabalho, essencialmente, com crianças (dos 6 meses aos 10 anos) ao nível da intervenção precoce. A minha experiência profissional é, predominante, com crianças e multideficiência – perturbações da comunicação; alterações de linguagem, fala e motricidade oro-facial; perturbações da leitura e escrita. De momento não trabalho em nenhuma clínica, no entanto, faço domicílio na zona de Braga". 

Terapeuta Filipa Santos
Licenciatura em Terapêutica da Fala, pela Universidade Fernando Pessoa.
Pós-Graduação em Motricidade Oro-facial, pelo Instituto Superior do Alto Ave.
A exercer funções como Terapeuta da Fala desde 2007, essencialmente com crianças e jovens.
Locais de trabalho: Agrupamentos de Escolas (Unidades de Multideficiência e Autismo); Gabinetes/Clínicas na Maia e em V.N. de Gaia. 

Terapeuta João Canossa Dias

ESTSP - IPP - Licenciatura em Terapia da Fala
FPCEUC - Mestrado na área de Ciências da Educação
Local de Trabalho: ARCIL - Lousã
http://www.arcil.org/ 

"Missão: Desenvolver a competência comunicativa no cliente e nos outros e tornar a Comunicação Acessível a TODOS!"

Terapeuta Lurdes Morim
Licenciatura em Terapêutica da Fala, pela Universidade Fernando Pessoa, em 2006.
Pós-graduação em Motricidade Orofacial, pelo Instituto Superior do Alto Ave, em 2010
"Exerço funções como Terapeuta da Fala em Barcelos e em Vila do Conde, em Instituições e numa Clínica, onde tenho o prazer de intervir nas diferentes áreas da Terapia da Fala - linguagem , fala (articulação verbal, voz) motricidade orofacial e disfagia - e com faixas etárias compreendidas entre os 3 e os 95 anos :)"

Terapeuta Maria João Sousa

Terapeuta da Fala pela Escola Superior de Tecnologias de Saúde do Porto.
Mestranda do curso Psicologia da Educação pela Universidade do Algarve
"Como o maior prazer, sou a Terapeuta da Fala de crianças e jovens únicos, lindos e admiráveis, com necessidades educativas especiais, no domínio da Comunicação, Linguagem e Fala. Atualmente, exerço no Agrupamento Vertical de Escolas das Ferreiras e no Agrupamento Vertical de Escolas do Algoz, enquanto Escolas de referência, com Unidades de Ensino Estruturado para alunos com Perturbações do Espectro do Autismo".        Contacto:  m_joao_s@hotmail.com Tlm: 919427563
   
Terapeuta Patrícia Nogueira
Licenciada pela ESTSP
Mestre em Ciências da Fala
"Desempenho funções no Laboratório de Audição e Terapia da Fala da Universidade do Algarve.
A Terapia da Fala é um mundo de descoberta constante onde o olhar, a atenção e a partilha permitem a descoberta e o crescimento dia a dia.
 Intervenho junto de casos privados na cidade de Faro, em especial crianças e adultos com alterações vocais." 

Terapeuta Sónia Silva Ribeiro
Licenciada em Terapêutica da Fala pela ESTSP 
"Exerço na FIsiorad em Felgueiras, na Casa de Saúde de Guimarães e na Clínica Santa Marta nas Caldas das Taipas. A Terapia da Fala move-me enquanto profissional mas, ainda mais, enquanto pessoa. É excepcional acompanhar e ajudar crianças e pais na caminhada do desenvolvimento da Comunicação, da Linguagem e da Fala. Nessa relação, a conquista de pequenas vitórias torna-se muito gratificante".
Contacto:sonianjos2@gmail.com 





segunda-feira, 5 de março de 2012

"Quito, quito, quito, ..."


Aqui há uns anos trabalhava num gabinete em que uma das funções que tinha era fazer rastreios em escolas e infantários que solicitassem a nossa deslocação. Numa dessas vezes conheci um pequenino de 3 anos que a educadora descreveu como sendo "o mais atrasado na fala". Como habitual, nestas situações nunca levo nada muito dirigido, por vezes até escolho algumas brinquedos ou livros das salas para os deixar menos inibidos e sigo um bocadinho a iniciativa deles. Neste caso acabou por ser um livro bem colorido e com várias imagens fotográficas. Abrimos o livro, ainda sem que o menino tivesse estabelecido contacto ocular comigo, me tivesse dito o nome ou qualquer outra coisa, e ele começou a explorar: apontava rapidamente várias imagens e nomeava todas com "quito". A minha inexperiência na altura não me permitiu ver logo do que se tratava. A educadora explicou-me que a mãe via diariamente antes de dormir livros com imagens na tentativa de lhe ensinar palavras, já que ele não falava ainda. Só aí se fez um click: "O que é isto? O que é isto?"




Escolhi este exemplo para relembrar como os modelos linguísticos nestas idades podem ser tão importantes. A fase do primeiro para o segundo ano caracteriza-se por imensas aquisições (e saliento que a compreensão da linguagem antecede sempre seis meses a sua produção), pelo que o adulto cuidador deve usar um modelo linguístico de fácil imitação. 

Neste sentido, é fundamental evitar o uso de diminutivos: ao dizer “casinha”, “florzinha” ou “gatinho” em vez das palavras correctas só estará a contribuir para atrasar a produção dessa mesma palavra. Usar diminutivos aumenta o número de sílabas, tornando-a mais complexa e, além disso, os sons /z/ e /nh/ são mais difíceis de articular, razão porque surgem mais tarde no desenvolvimento articulatório da criança.

No dia-a-dia procure antecipar verbalmente as situações que vão acontecendo e nomeie as diferentes fases. Esta atitude irá permitir que o seu filho ganhe confiança perante as situações novas, contribuindo para a sua participação. Nestes momentos use vocabulário adequado ao contexto, que seja funcional. A título de exemplo, não importa que a criança saiba a palavra “leão” se as palavras “cão” ou “gato” ainda não são usadas e, principalmente, se fizerem parte do seu quotidiano.

Neste processo, o cuidador deve dar a hipótese de a criança aumentar a qualidade e a quantidade do seu vocabulário, usando “expansões semânticas” , ou seja usar mais palavras para descrever um conceito que a criança já conhece. Por exemplo, para a palavra “bola” podemos usar diferentes adjectivos, tais como: “grande”, “azul”, “dura”, …

Hoje deixo uma sugestão aos pais: analisem os modelos linguísticos que propõem aos vossos filhos e procurem fazer um julgamento da assertividade com que o fazem.    



Imagem retirada da Internet. 
Fonte: 
Rigolet, S. (2006) Para Uma Aquisição Precoce e Optimizada da Linguagem. Porto Editora. 

domingo, 4 de março de 2012

Amar é educar...


Hoje decidi interromper o tema "Antes de Falar já Comunico" para abordar um dos temas de conversa que mais surge no dia-a-dia: comportamento!


Muitos dos pais queixam-se do comportamento dos filhos, do facto de não pararem quietos, da dificuldade em cumprir tarefas e, com frequência, da desobediência. Sinceramente, não me parece que haja uma “receita” que resulte com todos e as estratégias a usar dependem da criança, dos contextos em que está inserida e da idade. Contudo, aquele que me parece ser um factor determinante é a atitude dos pais perante as “malandrices” dos filhos. Por norma, as crianças comportam-se de forma diferente com diferentes interlocutores porque sabem o que esperar de cada um. A consistência do comportamento do cuidador é muito importante bem como a atitude que temos perante as birras e as “teimosias” das crianças. Importa relembrar que elas aprendem muito por imitação e que os modelos que lhes damos agora terão sérios reflexos nos adultos que se virão a tornar. 

Não pretendo aqui analisar aspectos comportamentais das crianças, no entanto acho sensato antes de afirmarmos que existe uma situação de mau comportamento tentar perceber se existem factores que poderão estar a causar essas atitudes. Alguns dos acontecimentos que poderão causar stress ou ansiedade estão relacionados com as mudanças na rotina da criança, como mudar de casa, discussões familiares prolongadas ou graves, divórcio dos pais, acidente ou perda de alguém querido, nascimento de um irmão, acontecimentos que afectem a estabilidade dos pais (desemprego, doença, questões legais, …).  

O comportamento não é algo que seja sempre estável nem que possamos controlar de forma constante e muitas vezes temos que nos questionar se são as crianças que estão a ser “birrentas” ou se somos nós. Será que hoje não estou um pouco mais ansiosa/o ou agitada/o? Noutra situação eu chamaria na mesma à atenção? Por vezes, vejo os pais ralhar aos filhos porque estavam a fazer uma brincadeira adequada à idade (sim, porque é importante nos lembrarmos que eles não tem que se comportar como adultos, eles são crianças por isso brincam, mesmo quando queremos estar sossegados a conversar no café ou a fazer compras, …) mas não o fazem quando eles são mal educados com alguém ou desrespeitam alguma regra que conhecem e que já foi imposta antes. Esta inconsistência “confunde” a criança e não contribui para a sua estabilidade comportamental, havendo mais tendência para a manipulação.

Este é sempre um assunto de que se poderia falar durante muito tempo e será certamente novamente abordado aqui no blog. Hoje deixo algumas linhas de orientação básicas para usar no dia-a-dia.

- Quando a criança procura manipular o adulto através do “chorinho”, das queixas, amuos, insistindo muito, é fundamental ter mais força de espírito e não se deixar vencer pelo cansaço. Tenha alguma atenção ao uso de recompensas (dar doces, pequenas prendas, …) pois se for usado muitas vezes rapidamente se torna na moeda de troca e só se portam bem quando são recompensadas.



- Procure evitar as chantagens com a criança porque elas aprendem com os exemplos dos pais e com o tempo “o feitiço vira-se contra o feiticeiro”.



- Diga-lhe claramente o que pretende, não dê ordens contraditórias ou pouco explícitas.

- Procure evitar frases do tipo “Vem aí o velho”, “Vou chamar o polícia” ou “Vou dar-te aos ciganos”. Além de ser uma mentira, só contribui para aumentar sentimentos de insegurança e, consequentemente, alguma agressividade de defesa.

- Quando a criança faz uma birra, deve deixar que esperneie, chore, grite, enfim… deixe que a birra passe sem oferecer nada para que ela se acalme (só está a valorizar a birra). Quando a criança acalmar explique-lhe com calma e sem julgamentos que não é assim que obtém o que pretende. Depois de se ter acalmado deve ser valorizada por o ter conseguido, sem o seu desejo ter sido satisfeito.

- Se a criança faz frequentemente birras é porque já percebeu que essa é uma forma de manipulação que funciona consigo, assim sendo está na hora de alterar algo na sua atitude. Primeiro, dê atenção à criança quando ela se portar bem: encoraje e elogie o bom comportamento. Estabeleça uma rotina, pois quando as crianças sabem o que as espera tem mais tendência a estar mais calmas e a fazer menos birras. Quando ela inicia uma birra, não valorize, ignore e se possível mude de divisão da casa.

- Lembre-se que as crianças gostam de testar os limites dos adultos. Quando lhe diz “não” deve manter a sua palavra até ao fim. Se não o vai conseguir fazer então não o faça. Como dizia a minha sobrinha aqui há dias “não é não!” (aprendeu na escola). E acontece o mesmo com os castigos ou retirada de privilégios. Não faça aquilo para que não está preparado. Com frequência oiço na clínica: “portaste-te mal, hoje não há televisão!” mas quando questiono se o pai/mãe vai ser capaz de manter a televisão desligada lá em casa o dia todo, a resposta “Não, é só até chegar a casa, é só para ele ter medo”! Sinceramente, acham que a criança leva a sério? 

O mais importante nos castigos é o que se transmite através deles, não explore exaustivamente o porquê do castigo mas diga-lhe a razão. Seja claro e firme e dê castigos proporcionais às asneiras. 

Como casal, não se devem contrariar um ao outro nem quebrar as regras impostas por um dos pais. Quando não concordam discutam em privado o assunto e tentem encontrar um meio termo antes de agir. Tenham bem presente que aprender a lidar com os “nãos” é fundamental para o crescimento psicológico da criança, que lhe permite desenvolver mecanismos de defesa para lidar com as frustrações da vida. Quando não somos assertivos neste aspecto, e tentamos evitar que as crianças sintam tristeza ou frustração porque os queremos proteger, corremos o risco de transformá-los em pessoas frágeis e com mais dificuldade para lidar com os viés que a vida lhes vai trazer.  

- Será que educar está sempre relacionado com repreensão? Ou será antes com respeito? Será necessário uma palmada para que eles respeitem? Como posso ter uma atitude mais positiva?
Deixo estas questões para uma próxima publicação…

Imagens retiradas da Internet